quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O consolo da neve - John Fante

"Os olhos dele saltaram de espanto. Soltei-o, ele se virou e entrou no ônibus. O veículo partiu, vomitava cheiro de óleo enquanto desaparecia na nevasca. Enfiei as mãos nos bolsos e me pus em marcha pela Pearl Street, caminhando pesadamente em meio à neve suja daquela tempestade despropositada. Mas havia um consolo na neve, apesar de tudo. Ela escondia vocês dos outros, as suas sardas, orelhas de abano e altura deplorável, e você passava por outros fantasmas na desolação, com as cabeças curvadas, olhos escondidos, a culpa e a inutilidade profundamente protegidas ali dentro."

- trecho das páginas 68 e 69 do livro "1933 foi um ano ruim", de John Fante (publicado em 2008 pela L&PM Pocket, , mas original e postumamente em 1985).

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sofia Coppola sente tédio

A solidão existente dentro de um carro potente e de luxo. O desespero do calor do asfalto da rodovia sem muito trânsito para quem não sabe muito bem aonde ir. A conquista do tédio dentro de um hotel bacana, participando de festinhas disputadas, tomando as melhores bebidas, tomando as melhores mulheres. Dependendo do grau de vazio da vida da pessoa, o tédio pode superar tudo, ainda que, pela noite, duas loiras lindas façam um polidance particular, apresentação aplaudida no final com pálpebras sendo fechadas e a entrega para o sono sinalizando um tchau para as moças.

O tédio mora longe, porém, em um despertar se deparando com a filha assinando o branco do braço engessado do pai – fruto de mais um tombo em meio ao trote vacilante do bêbado. “Um lugar qualquer” (2010), filme de Sofia Coppola, Johnny Marco (interpretado por Stephen Dorf) conquista o que os nativos americanos sempre quiseram: dinheiro, carro, mulheres, e ganhou de brinde o tédio. Mas no meio do caminho também teve como presente uma filha, uma antítese do tédio. Onze anos. Linda. Angelical. A personificação de tudo o que os pais devem sentir quando são acarinhados por filhos.

Johnny Marco é ator de Hollywood. E é difícil imaginarmos, nós os seres comuns e não estrelas do cinema, que esses caras também sintam tédio. O preço da liberdade, afinal de contas, é o tédio? A rotina sempre foi uma vilã na vida das pessoas. Dizem que por causa da rotina ficamos entediados, enojados do dia a dia – sempre tão mediano. Mas o ator, sem muita rotina, com seu carro potente, com sua longneck sempre gelada, com opções variadas de mulheres servidas como se estivessem em um cardápio, também sente um tédio lascado quando senta no sofá do hotel ou quando dá um milhão de voltas em uma estrada circular aparentemente no meio do deserto – cena inicial do filme e que já traduz o que teremos dali pra frente na película: uma história sobre o tédio. Para muitos, um filme entediante.

A intensidade do tédio deve variar conforme a profissão, os afazeres, a idade e as características pessoais de cada um. Lembro-me do tédio acercando minha vida ainda na infância. Na época não sabia que aquela sensação se chamava tédio. Mas realmente era entediante quando já não havia o que fazer: os moleques não estavam na rua, jogar baralho ou videogame sozinho não rolava e até a lição de casa já tinha sido feita. Hoje o tédio continua presente, só que em um grau mais desesperador, sufocante e deprimente. Conversa para outras crônicas…

É no sofá onde passamos a maior parte do tempo quando estamos entediados. Sim, porque na cama geralmente vamos para dormir. E dormir não é entediante. É bom. Os tediosos têm insônia. Sono não combina com tédio. Quem dera conseguíssemos dormir quando nos sentíssemos entediados. O padeiro sente tédio. O jornalista também. Até o médico deve sentir tédio. Pelos filmes que já assisti da diretora, certeza que Sofia Coppola também sente um tédio abominável.

Se Johnny Marco sente tédio, todos podemos sentir, oras! Mas no filme “Um lugar qualquer” há uma dica preciosa para que possamos, quem sabe, nos livrar por alguns instantes do tédio: apreciar a ingenuidade e bondade da filha de onze anos enquanto ela se sacia com sorvete de chocolate em cima da cama de um hotel luxuoso italiano, ou então quando repousa a cabeça nos ombros do pai entregue ao cansaço, mas completamente segura e livre do tédio por estar ao lado dele.

*Crônica publicada dia 11 de janeiro de 2012 no Diário de Maringá.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Domingo. Ela. Eu

Ela não entende porque eu preciso comemorar o gol que os outros times da capital levam. Eu não entendo como ela não gosta de torcer contra o Corinthians. Ela não entende porque eu sempre quero mais uma latinha. Eu não entendo como ela consegue beber leite de soja. Ela entende nada sobre eu estar cansado mesmo sem ter feito nada. E eu desconheço o entendimento para tanta força dessa mulher. Meus beliscões e “carinhos” fortes são vistos como estranhos. Acho estranho da parte dela também ficar me chamando carinhosamente com vozinha de criança. O prazer de relar em sua pele a garrafa gelada de água é desprazer imenso pra ela. Não consigo controlar a raiva quando ela puxa minha unha pra cima. Na TV, ela não quer ouvir e nem ver nada sobre futebol. Então eu quero zapear só em jogos e comentários esportivos. Eu não quero ver sangue, heróis que sabem tudo vestidos de branco e outros heróis que sabem tudo também só que vestidos de preto. Então ela quer seriados médicos e de investigação. Ela quer sair, dar uma volta, espairecer a cabeça. Só que eu não quero passear no shopping, uma das únicas opções naquele momento. Ela quer Banzé Lanches porque não é gorduroso e a salsicha é de primeira. Então eu quero Bolotas Lanches, com gordura pingando e refrigerante grátis. Ela quer dormir…e eu quero mais. Eu não quero dormir, mas ronco demais – pelo menos é o que ela diz. Eu prefiro móveis conservados e menos pelos brancos em minhas roupas pretas, e ela quer companhia felina, carinho e risadas só de olhar pro gato que parece porcelana chinesa quando está com sono. Eu quero camisa velha do Juventus de Turim pra sair em uma noite fresca de domingo pelas ruas calmas e com chão molhado, após mais uma chuva de Primavera, de Maringá. Ela simplesmente não deixa eu me vestir do jeito que quero, e sugere-impõe a camiseta nova estampada. Quero luz, visão da janela e emoção regada a nuvens, estrelas, sol, quase um mar. Ela quer persiana fechada, escuro, edredon e que eu ainda busque seu travesseiro no quarto. Ela quer jogar fora o resto da pizza. Eu quero ver se cabe mais um pedaço de pizza em meu estômago, mesmo com as formigas e com a eminente diarreia. Ela só pode com os de picolés de fruta, uva, morango, acerola, essa intolerância à lactose acaba com ela. E eu me acabo nos de leite, milho verde, mamão papaia, creme, leite condensado, coco. Ela quer ler os encartes promocionais da Pernambucanas. Eu quero que ela leia agora a matéria que escrevi, mas não digo nada pra não parecer um desesperado por sua leitura. De novo na TV, ela quer o Pânico pra simplesmente dar risada do Jô Suado, do Melhor do Melhor do Mundo e do japonesinho que imita a Sabrina Sato. Eu finjo querer café filosófico e concerto no Theatro Municipal de São Paulo, mas também dou risada demais e deixo no programa tosco e suave. Ela não quer que acabe logo o domingo porque no outro dia é segunda-feira e tem que trabalhar. Eu também não. E vamos dormir concordando com pelo menos alguma coisa. (crônica publicada dia 6 de novembro no jornal O Diário do Norte do Paraná).

terça-feira, 1 de novembro de 2011

a exclusão é necessária

a exclusão é necessária
nesse mundo cheio de gente, animais, plantas e bichinhos virtuais
a exclusão é necessária
via de regra, excluídos ficamos, a gente
é que...
somos não de plástico
sem perfumes trazidos do paraguai, somos lá não muito cheirosos
e nem podemos ser chamados de filhinhos,
assim como cães e gatos
quando crianças, tudo é ensinado pelos pais, pela vida juvenil
menos como lidar com a exclusão
o ensino vem errado, ao contrário
é tanta proteção, tanto abraço apertado, tanto beijo no pai, na mãe e no tio também
que todos nos esquecemos,
ou pelo menos fingimos esquecer,
de dizer o mais importante
dizer que seremos excluídos, e que isso ocorre simplesmente porque é necessário
naquela véspera de natal o menino torceu para que eles o chamassem para entrar
ganhar presente nem era o mais importante
apenas entrar para o aconchego do lar
latinhas de cerveja para os adultos, tubaína para as crianças
ele só queria ser chamado para entrar
menino não sabia que a exclusão é necessária
onde vive um não cabe dois, onde estão três não cabe cinco
coração de mãe o quê...
passeios noturnos com a bicicleta Monark pelas ruas da cidade pequena
é véspera de natal, e as luzes das salas das casas estão todas acessas
mesmo sendo verão, um frio nas pernas peladas, bermuda não vai esquentar
é verão, é calor, mas então por que os pelinhos dos braços insistem em arrepiar
uma vontade de chorar, lágrimas prontamente enxugadas pelo vento
corre bicicleta! corre
o coração pequeno se aperta, ficou quente a região do peito
lembranças fortes incapazes de se apagarem
e então essa é uma das primeiras lições aprendidas na marra pelo menino sobre exclusão
adulto, ele nem sabe por que se lembra disso justamente no dia do seu aniversário
voltasse no tempo, pediria, quando completasse anos na meninice, um só presente:
que alguém lhe abrisse o jogo, o alertasse
de que a exclusão é necessária.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

é preciso voltar

é. 
acabou. 
mas acredita em ciclos? 
no resto que vira sobrevivência ao pássaro e depois semeadura?
então confie em mim: um dia voltarei. 
é preciso voltar. 
é como se, de propósito, sempre esquecesse o livro de cabeceira, 
o isqueiro de estimação
ou um teco da carne da minha bochecha
por entre as almofadas do teu maldito sofá laranja.
é preciso voltar.

domingo, 4 de setembro de 2011

Paciência e excesso de amor próprio

Agoniza, mas não morre.
Um dia eu voltarei.
Um dia ela voltará.
Mas quantas vidas precisaremos morrer para o reencontro?
Um dia, quando acordei na pele de um monge velho tibetano, quase morri de tédio.
Depois aprendi a esperar, de tanto observar uma rocha do mar virar areia.
Passaram-se mil anos e alguns meses.
E então eu era mulher de malandro, sofredora, que toma e gosta de tapa na cara
Arduamente aprendi a me amar, também.
E então mais duzentos anos separaram vidas.
Estou aqui, hoje, sem ver o mar, sem tomar o tapa.
Amando demais quem não deveria,
incluindo-me no primeiro lugar da lista,
ao lado de deus,
egoísta.
Numa sala de espera sem fim, sem remédios para o tédio
e sem acreditar que um dia eu apanhei
que um dia eu esperei o grão de areia nascer da montanha.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A poltrona rasgou - FIM

Algumas pessoas não perceberam o link disposto ao final do post anterior, que trata-se de uma brincadeira convidativa para o meu novo blog, agora inserido na blogosfera de odiário.com.


Por isso, peço gentilmente a todos que sentiam prazer em sentar-se nesta poltrona que agora visitem meu novo espaço na internet, onde publicarei diariamente minhas crônicas e outras delongas. Acessem:


http://www.odiario.com/blogs/wilameprado

A poltrona rasgou

A poltrona foi para o conserto e talvez não volte mais. Obrigado, caros leitores, pelas visitas e comentários feitos neste humilde blog, que começou meio na brincadeira, em janeiro de 2008, mas que hoje já me rende alguns frutos.

Para quem acredita em ressurreição, talvez exista vida depois da morte. Ou, talvez ainda, a morte seja somente umas férias indeterminadas. Saiba mais.